A copa em que o jogo perdeu a graça

    Eu tinha doze anos em 1974, e lembro com a clareza de um dia ensolarado que, na final da copa do mundo de futebol, encantado com o carrossel holandês e com a magistral atuação de Johan Cruyff, dos irmãos gêmeos René van de Kerkhof e Willy van de Kerkhof,  e com a facilidade com que aquela seleção jogava, meu pai apostou uma cabeça de porco assada com um vizinho, como certa a vitória contra a Alemanha.

    A vitória não veio. A cabeça de porco custou uns poucos cruzeiros que não comprometeram o orçamento familiar e foi consumida com alegria pelas duas famílias reunidas.

    Os tempos mudaram. É com surpresa, e um preocupante grau de decepção, que a copa do mundo se vendeu às bets que, no Brasil dominam o capital nos sistemas de transmissão dos jogos.

    Isso não seria relevante, não fosse a crescente onda de estragos que o vício em apostas vem fazendo em nosso país. São jovens que desviam o dinheiro da formatura para apostar, homens e mulheres que recorrem a agiotas em busca de mais recursos para continuar correndo atrás da ilusão de ganhar dinheiro fácil.

    Olhando para fora do Brasil, vejamos o exemplo de Las Vegas: Imensas construções iluminadas, luxo e ostentação naquela que foi, durante muito tempo, a capital mundial do jogo, tendo sido superada por Macau em 2001.

    Todo aquele luxo e ostentação não foi construído com cassinos benevolentes, que distribuíam fortunas a seus frequentadores. A lógica matemática dos dados é clara: são seis lados, com um sexto de chance de cair um determinado número e, quando se joga um par deles, como na mesa de apostas, essa probabilidade cai para um trinta e seis avos, o que reduz, e muito, a probabilidade de ganhar.

    O que quero mostrar, recorrendo à nostalgia do futebol dos anos 1970, é que hoje tudo é instantâneo, eletrônico, veloz e automático, coisa que eu nunca imaginaria quando assisti pela TV à final da copa de 1974 e isso, com certeza, é fantástico. 

    Entretanto, essa automação e a exposição das casas de apostas contribuíram de forma significativa para o vício do jogo e para o sacrifício de muitas famílias, com o desvio dos recursos que seriam usados para cobrir as necessidades básicas, chegando ao ponto, em alguns casos, de pessoas atentarem contra a própria vida.

    Eu fico cá, com minhas memórias, quando o que estava em jogo era, nada mais, nada menos, que uma simples cabeça de porco assada.

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